As eleições de 2019 na Indonésia e os protestos em Jakarta

Os protestos em Jakarta, no seguimento do anúncio oficial do resultado das eleições de 2019 na Indonésia, estão nas notícias um pouco por todo o mundo. Há dois dias que estou a receber mensagens preocupadas e queria escrever sobre o assunto, para explicar afinal o que por aqui se passa. Este que é o mês do Ramadão, um momento em que os indonésios deveriam estar em paz e em reflexão, está a ficar marcado por estes episódios violentos. Mas a verdade é que, para a maioria de nós que aqui vivemos, a vida decorre (quase) normalmente.

Protestos em Jakarta, o que se passa afinal na cidade?

As eleições na Indonésia decorreram há mais de um mês, no dia 17 de Abril. Nas horas que se seguiram, já se anunciava (não oficialmente) que o candidato vencedor era Joko Widodo, o actual presidente, com uma margem muito grande de votos a seu favor. E, também já aí, o candidato derrotado, o general Subianto, se recusou a aceitar o resultado e proclamou-se vencedor. Por essa altura, houve alguns protestos em Jakarta e noutras cidades principais da Indonésia, mas nada especialmente dramático. Ontem, 22 de Maio, era a data marcada para anunciar os resultados das eleições de forma oficial. E tudo fazia prever que haveria confusão. O candidato que ficou em segundo lugar alega que houve fraude eleitoral, recusa aceitar a derrota e avisou que vai entrar com medidas legais para anular o resultado agora anunciado.

Face a isto, os seus apoiantes, alguns de grupos religiosos mais conservadores, decidiram convocar uma manifestação para mostrarem o seu descontentamento com o resultado. Ao mesmo tempo, houve informação de que estavam a ser planeados ataques terroristas que tinham como alvo os manifestantes dos protestos em Jakarta. Foram presas algumas pessoas que estariam a preparar um atentado e falou-se em bombas detonáveis à distância com recurso a telemóveis. Vai daí, surgiram os alertas para que toda a população evitasse aglomerados e locais de potencial risco. Centros comerciais, Starbucks e outros que tais, incluídos. As empresas estrangeiras, mandaram os trabalhadores ficarem em casa e as escolas internacionais decidiram fechar.

Entretanto, como forma de tentar atenuar parte do drama, em vez de anunciar os resultados das eleições durante o dia 22 de Maio, a comissão eleitoral decidiu fazer o comunicado de madrugada, por volta das duas da manhã. Mas os manifestantes, vindos de todo o país, já estariam a caminho para se juntarem aos protestos em Jakarta e começaram a concentra-se nas ruas de manhã, tal como se previa. Aquilo que seria uma manifestação pacífica, rapidamente tomou outras proporções, com alguns elementos com atitudes mais violentas. Houve confrontos com a polícia, carros, autocarros e edifícios da polícia incendiados. Mortos, feridos e muitos detidos. A organização da manifestação diz que os desordeiros são elementos isolados e não aprova o que se passou.

Durante o dia de ontem, várias ruas do centro foram cortadas, houve reforço policial, usaram helicópteros com água para dispersar a multidão (na foto do cabeçalho, tirada por uma amiga), terá havido agressões também a jornalistas, entre outros eventos aparatosos e violentos. Facebook, Instagram, Twitter e outras redes sociais foram bloqueadas e algumas redes de telemóvel e serviços de Internet, sofreram também interferências. Alegadamente como forma de evitar a propagação de mensagens violentas e de incentivo aos distúrbios. Grupos étnicos como os chineses, foram aconselhados a ter cuidados redobrados, por serem um dos principais alvos de ódio nestas situações de tensão política e religiosa. Mas estrangeiros, em geral, devem manter-se alerta ao que os rodeia.

E nós, de que forma estão estes acontecimentos a afectar-nos?

A maioria dos distúrbios estão a acontecer no centro da cidade, bem longe do bairro onde vivemos. Nós estamos bem, a fazer a nossa vida de forma mais normal possível, embora um pouco mais recatados. O Pedro tem ido trabalhar, mas tem regressado a casa mais cedo. E estamos a evitar centros comerciais e zonas da cidade potencialmente complicadas. Na televisão local, não está a passar muita informação a respeito do que está verdadeiramente a acontecer. E, se não fosse a escola da Inês estar fechada e não conseguir seguir as notícias pelas redes sociais, na prática, se não me contassem, eu nem daria conta de que há protestos em Jakarta.

Ontem de manhã saí com a Inês para irmos a casa de uma amiga e no regresso cruzei-me com muitos autocarros da polícia. Mas foi a única coisa relacionada com este assunto que vi com os meus olhos. De resto, nos grupos de whatsapp de estrangeiros dos quais faço parte, têm circulado informações e vamo-nos informado dos diferentes alertas e do que se está a passar pela cidade. Algumas informações que circulam, são especulativas e a puxar um bocadinho ao pânico e à conspiração. Mas, no geral, acho que todos estamos a levar a situação com calma e com a esperança de que daqui a 2 dias, tudo isto terá terminado e a vida seguirá tranquila. Tranquila, dentro de um género muito específico, claro, que isto aqui continuará a ser Jakarta e a emoção nunca pára.



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