Crianças de Terceira Cultura: filhos do mundo

O facto da minha filha, a Inês, estar a crescer longe de Portugal e de todas as referências culturais que tanto para mim, como para o Pedro são importantes, sempre me angustiou. Se por um lado, viver fora, tem imensas vantagens no desenvolvimento dela, por outro, não sabia bem descrever o que me preocupava…mas sempre senti esse peso e não sabia como lhe pôr um fim.

Como é que vamos garantir que ela também é portuguesa? Esta era uma pergunta que eu fazia muitas vezes…

Há cerca de um ano, fiz uma formação cultural para aprender a conhecer e a comportar-me na Malásia e foi nesse dia que o formador me falou pela primeira vez num termo que me trouxe tantas respostas, só por saber que existia: Third Culture Kids – Crianças de Terceira Cultura.

É este o nome dado a crianças que passam uma parte significativa dos anos em que a sua personalidade se forma em contacto com várias culturas diferentes daquela(s) dos seus pais ou do seu país de origem.

Descobrir que há um nome para crianças na situação da Inês e informação disponível para compreender como se desenvolvem as suas mentes, foi todo um mundo novo para mim, foi o meu momento “ah-ah!”. E, por isso, acho importante partilhar a minha experiência. Até porque sei que algumas pessoas que me lêem, têm filhos nesta situação, ou são elas mesmas triângulos culturais.

Terceira Cultura: de que se trata afinal?

O conceito não é assim tão simples de perceber e tem várias nuances que à partida não são evidentes. Mas, para vos explicar, tento simplificar com o exemplo que tenho cá em casa.

Nr 1 A cultura dos pais: que pode ou não ser a do país de nascimento da criança

Nós nascemos todos em Portugal e portanto a pergunta “de onde és?”, no nosso casonão apresenta grande dificuldade na resposta. Apesar de na altura do nascimento da Inês nós já estarmos a viver em França, decidimos que ela nasceria em Portugal. A Inês, embora nunca tenha passado mais que 3 semanas seguidas em terras Lusas, é Portuguesa. Tem passaporte Português, fala Português, tem a família toda em Portugal e sabe que o Benfica é o melhor clube do mundo. Até aqui, fácil, certo?

Nos casos de crianças com pais com diferentes culturas de origem, nascidas num outro país e a viverem num outro, a pergunta “de onde és?”, não será assim tão fácil de responder. Da mesma forma, casos em que os pais tenham nacionalidades diferentes e a criança tenha nascido num outro país que não o dos pais, podem significar que a criança adopte uma cultura cruzada, mas não necessariamente esta terceira cultura a que se refere o termo de que vos falo. Eu avisei que era um pouco complexo.

Nr 2 A cultura dos países de acolhimento: que podem ser vários

Aqui sim, começa a complicar a sério, até no nosso caso. Como disse, a Inês nasceu em Portugal, mas passou o primeiro ano de vida em França. Arrisco a dizer que não absorveu nada da cultura Francesa porque como não ia à escola, as interacções que tinham eram todas connosco num ambiente mais ou menos Português.

Quando a Inês tinha um ano e pouco, mudámo-nos para os Estados Unidos e, aí sim, acho que começou o processo de absorção cultural dela. Já interagia muito mais, já andava e, ao fim de uns dias de termos chegado a Seattle, já dizia “Hi baby!”, que era o que ouvia das pessoas na rua a toda a hora. Fez amigos, participou nas cenas típicas da vida Americana e aprendeu a falar Inglês.

Com dois anos e pouco viemos para a Malásia e a Inês foi pela primeira vez para a escolinha. A escola dela tem um ambiente multicultural, embora a maioria das crianças sejam locais. Foi aqui que começou a ganhar hábitos marcadamente da cultura Malaia, como tirar sempre os sapatos ao chegar à escola, cruzar as pernas de uma maneira específica e a usar o polegar para apontar. Também passou a falar Inglês com pronuncia Asiática.

Nr 3 A sua própria cultura: apenas partilhada com os pares

O terceiro vértice do triângulo, a terceira cultura, é então o resultado da combinação de todas as variantes anteriores. É a cultura que estes indivíduos desenvolvem e que apenas partilham com outros que tenham tido o mesmo tipo de vivências.

Isto, porque os estudos feitos acerca destas crianças, mostram que, embora os países que influenciam culturalmente os vértices nr. 1 e nr. 2 deste triângulo possam ser diferentes e em diferente número, o que resulta no vértice nr. 3 é semelhante. Ou seja, por terem passados por processos idênticos (de mudanças, despedidas, readaptações, etc) estas crianças partilham os mesmos traços de personalidade, as mesmas angustias, as mesmas alegrias e a mesma forma de pensar. No fundo são uma espécie de tribo, com uma cultura só deles.

Ainda que em casa só falemos Português, se coma bacalhau (quando possível), a televisão passe as nossas notícias e até o Canal Panda, a Inês já não é Portuguesa. A cultura que a define, já não é só aquela que praticamos em casa. É, na verdade, o resultado das aventuras à volta do mundo que os seus 3 anos e meio de vida lhe proporcionaram.

 

Perceber tudo isto, foi algo que me ajudou muito. Sossegou-me, porque sei melhor o que tenho em mãos e deu-me ferramentas para ajudar a Inês nesta sua aventura. Há um tempo, uma amiga dizia-me: “A probabilidade de a tua filha ser uma pessoas preconceituosa, é ínfima. Vai crescer com mundo, é óptimo.”  E é verdade, embora a preocupação continue a existir, é nesta visão que tento focar-me.

Neste momento, embora continuemos a tentar incutir na Inês traços da cultura Portuguesa que consideramos importantes, isso já não é a minha maior missão. Já não me preocupo tanto com o seu possível desenraizamento, mas sim em tentar ajudá-la a compreender as mudanças, em assegurar-lhe que, embora vá deixar os amigos e esta escola, tudo vai ficar bem. Nesta e em todas as mudanças que se seguirem.

Aprendi a aceitar que talvez a minha filha não vá ser Portuguesa da mesma forma que eu sou e que isso, na verdade, não é problema nenhum.

 

 


A quem se interessar pelo tema, recomendo a leitura do livro Third Culture Kids – Growing Up Among Worlds, por Ruth E. Van Reken, David C. Pollock. Embora apareça classificado como livro de auto-ajuda, é um livro bastante técnico, com informações factuais e histórias reais, sem tretas. A 1ª edição já é muito antiga, por isso, aconselho a leitura da 3ª edição (2017) já que está completamente revista e adaptada à realidade actual em que as distâncias se parecem encurtar com o recurso à tecnologia.

Da mesma forma, há uma série de TED Talks sobre o tema com testemunhos reais de pessoas que cresceram neste contexto. Este video da Tayie Selasi, com o título “Don’t ask where I’m from, ask where I’m a local”, é um bom exemplo.

 

 

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