Em busca de letras bonitas

caligrafia_0Quem me ensinou as minhas primeiras letras foi o professor Pinto. Aquela letra de “escola Primária”, que todos nós começámos por ter e que uns guardaram até hoje e outros, como eu, perderam pelo caminho.
Quando cheguei ao final da 4ª classe, e com a perspectiva de que ia “passar a Avenida“* e o próximo ano lectivo já seria no 5º ano, na escola “dos crescidos”, decidi que não podia continuar a ter uma letra de criança.
Aproveitando que nas férias grandes quase sempre deixava de saber escrever e de pegar numa caneta (não era só eu que ao recomeçar a escola tinha dificuldade em desenhar de novo as letras, pois não?), decidi começar a praticar uma nova maneira de escrever. Aquela que na altura me pareceu a mais indicada e que demonstrava o quanto eu já era crescida: letra de máquina!
Passei então essas férias a fazer cópias para aperfeiçoar a letra mais horrível que algum professor deve ter visto em testes, mas que eu achava O máximo.
E isto durou uns belos 3 anos, com alguns professores a pedirem-me para escrever melhor os “r” porque pareciam “v”, e com a minha mãe a soltar uns “ai filha tinhas uma letra tão bonita e agora é isto“, pelo caminho.
No 7º ano mudei para uma turma em que todos os colegas (à excepção de alguns rapazes) tinham uma letra linda.
Lembro-me especialmente da letra dos primos Carapinha, a Dora e o Pedro. Cada um no seu estilo, com as letras mais bonitas que já vi.
A letra da Dora, cheia de floreados gorduchos e a do Pedro, num estilo letra formiguinha, redonda e perfeitinha.
E foi aí que percebi que não, aqueles meus gatafunhos não eram fixes…acho que andei uns 2 anos meio perdida, a adoptar uns rabiscos novos e a manter outros, numa clara crise de identidade caligráfica.
No 9º ano, mudei de cidade. Naquela altura escreviam-se cartas e naquela altura eu morria de saudades dos meus amigos todos. Por isso, os meus intervalos eram passados a escrever cartas. Porque era com cartas que, também naquela altura, se matavam as saudades (havia muito para contar sobre estas cartas, mas o tema hoje não é esse).
E foi assim, na tentativa de que as cartas que enviava tivessem uma letra tão bonita como a daquelas que recebia, que passei a ter a letra que tenho hoje. Que não é linda, mas que sempre foi muito requisitada para escrever os postais de aniversário para os colegas (fosse na Universidade ou no meu antigo trabalho).
Recentemente, descobri que a caligrafia era um tema que não tinha morrido e que há por esse mundo fora um monte de artistas neste campo.
Passei a seguir várias pessoas que fazem coisas lindas (no Instagram) e decidi dedicar-me a aprender novas formas de escrever e de fazer coisas bonitas com letras.
O mais giro é que há toda uma comunidade que partilha dicas e cria desafios para ajudar principiantes como eu a darem os primeiros passos e a aprenderem os pequenos truques que fazem toda a diferença.
caligrafia_1Como forma de levar para a frente o meu compromisso com este novo hobby, decidi participar num desafio que consiste em desenhar uma letra por dia ao longo do mês de Fevereiro.
A ideia, é que cada dia desenhe uma letra (pré-definida) e a partilhe no Instagram. Todos os participantes fazem isto e depois podemos ver as letras uns dos outros e assim tirar ideias (espreitem os hashtags #handletteredABCs_2017 e #handletteredABCs).
Eu estou a experimentar diferentes técnicas e diferentes materiais, por isso, as minhas letras não têm um tema, nem uma linha de coerência.
Normalmente, desenho a letra do dia logo de manhã, enquanto tomo o pequeno-almoço. Faço umas quantas tentativas, até me sair alguma coisa que me pareça decente e publico no Instagram. A seguir, vem a Inês com um marcador e rabisca-me o trabalho todo, portanto, as minhas letras só têm durado o tempo de tirar a foto.
caligrafia_aHá quem dedique tempo a sério a isto e faça coisas de deixar qualquer um de boca aberta, eu ainda não estou nesse nível…ainda!
Comprei um conjunto com canetas de pontas “especiais”, vejo muitos tutoriais e pratico quando posso.
Ainda assim, não sendo nenhuma obra de arte, se tiverem curiosidade, podem ir espreitando o meu ABC
 e outros devaneios caligráficos no Instagram ou no Facebook.
Lá para dia 26, quando chegar ao “Z”, pode ser que esteja uma pro.

*”passar a Avenida“, era uma expressão que se usava para designar o acto de passar da 4ª classe para o 5º ano em Montemor, onde estudei.
Pelo menos para quem tinha feito a Primária do lado de cá da Avenida e ia para o ciclo, que ficava do lado de lá.
Não passar a Avenida, era sinónimo de ter chumbado na 4ª classe.