O dia em que eu ia ao pão e entrei numa realidade paralela

Viver em Jakarta, só por si, já pode ser considerado como um feito de outra dimensão. Falei-vos antes de como é tudo tão diferente do que conheci até hoje e como todos os minutos nesta terra me proporcionam choques ao nível de todos os sentidos. Mas do que eu não me tinha lembrado, era de que pudessem haver outras realidades paralelas, um pouco surreais, dentro de toda a loucura que, ao final de um mês a viver aqui, começa a tornar-se no meu normal. Explico-vos melhor…

 

Como uma simples ida ao pão me transportou para uma realidade paralela

Nesta cidade atulhada de gente, há algumas comunidades estrangeiras e, naturalmente, os estrangeiros tendem a aproximar-se uns dos outros e, especialmente, dos que são mesmo MESMO como eles. Ou seja, os americanos têm o clube Americano, os australianos têm a sua escola e as suas associações, os holandeses, a mesma coisa, as mulheres brasileiras têm o grupo de whatsapp mais dinâmico e informativo em que já me vi e até os portugueses, timidamente, têm os seus encontros e partilha de informação. Percebem a ideia, certo?

Naturalmente que, as comunidades com maior representação, têm estruturas e locais de apoio com mais expressão. Há um condomínio junto ao Liceu Francês, onde vivem tantos franceses que é conhecido como a aldeia gaulesa. E, nessa mesma zona da cidade, fica também uma famosa padaria francesa (óbvio) onde diferentes pessoas já me tinham dito que havia pão muito bom. Chama-se Levant e faz parte de uma pequena cadeia de lojas localizadas em bairros onde vivem sobretudo estrangeiros.

Portanto, estando eu ainda privada de todos os meus aparelhos de cozinha e, não tendo encontrado até à data uma farinha em condições para fazer pão em casa, decidi ir conhecer tão famoso estabelecimento. O meu plano era entrar, ver o espaço, perceber que tipo de pão e bolos têm eles por lá e, caso me agradasse assim muito, comprar logo uma série de coisas para congelar. Simples. Ainda por cima não fica muito longe de minha casa, por isso, depois de umas voltas para evitar os engarrafamentos, cheguei facilmente ao destino.

 


Abro agora um pequeno parênteses longo, para explicar isto: o meu cérebro divide-se diariamente em 3 idiomas. Português, porque sim, o meu melhor inglês, para comunicar com quem também se faça compreender nessa língua e um Inglês alterado e mixado com o meu pior bahasa Indonesia, por uma questão de sobrevivência. Este último, no caso de não estarem a entender bem o conceito, soa mais ou menos assim:

O que eu quero dizer:

“Bom dia, olhe eu gostava de saber onde posso comprar sal para a máquina de lavar louça, será que me pode informar?”

Como isto soa no meu melhor inglês:

“Good morning, could you be so kind to let me know where can I buy salt for the dishwasher, please?”

Como isto soa em inglês mixado com mau bahasa:

“Selamat pagi, dishwasher garam, where to buy? Garam, garam dishwasher! Buy where??”

 

Outras línguas que consigo falar, são o espanhol, não há português que não se lance na língua do país vizinho, verdade? E o francês, que não é maravilhoso, demorei muitos anos a desbloquear para me sentir à vontade para o falar e dou muitas calinadas, mas pelo menos perdi a vergonha de tentar. Ora, este cocktail, às vezes, dá cabo da cabeça de uma pessoa…

 

Fecha parênteses.


 

Entrando na famosa padaria, começo a olhar para a vitrina dos pães quando um senhor, muito simpático (o dono), me lança do lado de lá um sonoro Bonjouuurrrrr. E é nesse momento que o meu cérebro entra em curto-circuito e eu começo a transpirar de todos os poros. A tão afável cumprimento, eu não podia não corresponder e, claro, sabendo alguma coisa de francês, não ia agora falar com o senhor em inglês. Ou pelo menos foi isto que me fez sentido no momento. O que se seguiu foi todo um momento surreal, de repente, eu era a prima emigrada da Amélie e estava num filme.

Começo a perceber que à minha volta TODA a gente falava francês, empregados indonésios incluídos, e duvido do que ouço. Isto está MESMO a acontecer? Eu estava numa realidade paralela, dentro da realidade paralela, uma espécie de inception. E vai que desce em mim um espírito que desconhecia ter e começo a conversar num dialecto que não vos sei descrever, que uma coisa é a pessoa falar francês quando está há 3 anos em França e outra é, do nada, falar quando está aqui, em Jakarta e não praticou esse idioma durante 2 anos.

O senhor apresentou-me todos os pães, bolos e bolinhos, descreveu todos os ingredientes, diferentes farinhas e percentagens de humidade de cada um, disse-me que é de Lyon, perguntou-me da minha vida como vim aqui parar, se já cá estou há um mês porque é que ainda não me tinha lá visto, como me chamo, encantado e volte sempre. Eu respondi a tudo com as melhores palavras que encontrei e com o meu melhor semblante francês (que toda a gente sabe que a linguagem corporal é muito importante):  Bonjour Monsieur, moi je parle pas trés bien, mais blah blah blah, ooo-lah, lah….très bien, ah-oui, and so on….

Saí de lá com um saco cheio de pães, a rir de nervos, com lágrimas nos olhos (de riso e de embaraço). Na minha cabeça, relembrei a cena, como se eu estivesse fora do meu corpo e vi esta portuguesa a suar em bica, a falar mais do que devia, numa velocidade que claramente pretendia esconder os erros que estava a cometer, tendo obviamente o efeito contrário e revi o senhor. Revi as expressões dele de cada vez que eu abri a boca…ter-lhe pedido un pain de cHampagne em vez de campagne, decididamente foi algo que o marcou (a cara dele disse-me!), mas enchantée et à la prochaine, porque o pão (ainda que sem cheirinho) é realmente muito bom.

 

 

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