Viver em Jakarta: as primeiras impressões

​​I love it here!…except for the traffic.

É assim que toda as pessoas com quem falo me respondem quando​​ lhes pergunto se gostam de viver em Jakarta. Chegámos aqui há exactamente uma semana e, por enquanto, não há nada que amemos em particular. Sei bem que são só as primeiras impressões e que, pouco a pouco, também nós vamos descobrir os encantos desta cidade e deste país. Mas, para já, viver em Jakarta, está a ser um processo de adaptação lenta. E, não querendo ver só as coisas más, nem pintar um cenário mais negativo do que a realidade, o que se passa é ​​que Jakarta é muito diferente do todos os sítios onde vivemos até hoje e não está a ser fácil.

Viver em Jakarta, considerações de quem chegou há apenas uma semana

Isto é pior do que a selva. Porque na selva, pelo menos, é tudo limpo e natural.

(palavras do Pedro)

 

É preciso contextualizar: na Malásia nós vivíamos nos arredores de Kuala Lumpur, numa zona em desenvolvimento onde reina a tranquilidade. A nossa casa era num condomínio ainda pouco habitado, rodeada de verde, passarinhos e silêncio. Eu e o Pedro conduziamos para todo lado, não havia engarrafamentos e éramos muito felizes. Deixar esse cenário perfeito, seria sempre difícil. Trocá-lo por uma cidade com o mesmo número de habitantes de Portugal, que calha ser também das mais poluídas do mundo e que é conhecida por ter dos piores engarrafamentos de que há memória, é um quase pesadelo.

Não acredito que haja muita gente a fazer planos para vir morar para aqui, a frase “o meu sonho é viver em Jakarta”, nunca deve ter sido pronunciada por ninguém. As pessoas vêm aqui parar, não me parece que escolham ou desejem que isso aconteça. Foi também esse o nosso caso. Aconteceu e cá estamos. Não querendo escrever muito e tendo as ideias ainda um pouco desorganizadas, partilho alguns aspectos que me saltam à vista (e a todos os outros sentidos), assim meio a cru, nesta primeira onda de choque:

A barreira linguística é muito grande

Ao contrário da Malásia, a Indonésia não foi uma colónia Inglesa e, a maioria das pessoas não fala Inglês. Mas são super simpáticos e respondem “sim” a tudo com um grande sorriso, especialmente se não estiverem a perceber nada do que lhes dizemos. O que torna as coisas muito frustrantes, muitas vezes por dia. Aprender o mínimo de Bahasa Indonesia (que é diferente do Bahasa Malay que se fala na Malásia) é imperativo e já começámos. Os senhores são Pak (pá) e as senhoras Ibu (bú). Ini significa aqui, ya é obrigado e tidak é não. Em caso de perigo Awas – cuidado!

O trânsito não é mau, é péssimo

Por todo o lado há carros, pessoas, motas, vendedores ambulantes e polícias de trânsito informais – pessoas que estão a orientar o trânsito a troco das moedas de quem passa, ou só porque querem desbloquear a rua para passarem também. A juntar a isso, excepto nas zonas mais modernas da cidade, ordenamento do território, é uma miragem. Cada um foi construindo casas viradas para onde bem lhe apeteceu e as ruas nasceram lá pelo meio. Isto, faz com que o trajecto de 2,5km de nossa casa à escola da Inês demore, no mínimo, 20 minutos a percorrer.

A poluição é uma realidade constante

Não existe um sistema de tratamento de águas residuais. Tudo o que sai das casas, vai invariavelmente parar a canais que desaguam no rio. O chamado rio negro…o mesmo que, no mês passado, durante a organização dos Jogos Asiáticos, o presidente mandou tapar. O ar, mesmo nos dias em que não saio de casa, é carregado e poluído. À noite, começa a sentir-se o cheiro a lixo queimado e dura até de manhã. Se me esqueço de tomar o antistamínico, sinto uma grande diferença. Os purificadores de ar vão ser algo que vai ter que fazer parte da nossa vida, quanto antes. E claro, água, só de garrafão.

Os contrastes sociais são gigantes

Há bairros de pessoas locais com muito dinheiro, compostos de mansões absurdas (amam entradas ao estilo de lobby de hotel e estatuária Romana de proporções exorbitantes – se for em dourado, melhor). Outros, mais habitados por estrangeiros, com casas grandes (mas bem mais modestas) com seguranças privados ou em condomínios guardados. Todos, convivem porta a porta com casinhas e barracas onde vivem outros locais, menos abastados, num contraste que não me deixa indiferente.

O barulho não pára nunca

A nossa casa, está vazia porque as nossas coisas ainda nem saíram da Malásia. Temos algumas peças de mobília alugada (camas, sofá, televisão, mesa e cadeiras de refeição, talheres, copos, pratos e pouco mais) que nos permitem viver aqui e evitar uma estadia longa no hotel. A casa faz por isso imenso eco e amplifica todos os sons que têm lugar lá fora. Sejam as motas e os carros de escapes sonoros, os vendedores ambulantes com as suas músicas de ferrinhos a bater, os galos dos vizinhos, ou as chamadas para rezar pelas milhentas mesquitas e casas de orações (que começam às 4 da manhã), não existe silêncio.

Nem tudo se encontra e nada é garantido

É comum que alguns produtos desapareçam do supermercado durante meses. Alguns, são mesmo impossíveis de encontrar. Portanto, coisas que assumimos que haverá no supermercado, podem nunca nos passar pela vista. A título de exemplo: não consegui ainda encontrar papel vegetal (uso para fazer pão), nem aftershave (não é para mim, né?!), nem aquelas protecções de papel de alumínio para manter o fogão limpo. Significa isto que é aconselhável fazer um pequeno stock de determinadas coisas, não vão elas evaporar-se.

Há uma luz no fundo do túnel

No meio do caos, há cafés e restaurantes giríssimos, padarias francesas, supermercados internacionais, shoppings luxuosos e salões de beleza (com Ferris à porta) cheios de clientela. As pessoas, locais e estrangeiros, são no geral, simpáticas e prestáveis. Há escolas com condições maravilhosas, frequentadas por crianças de todas as nacionalidades e professores vindos também de todo o mundo. Há um orgulho em usar roupas com os tecidos e padrões típicos daqui, resultando num colorido agradável aos olhos. Tudo e mais um par de botas, está à distância de uma app e de uma mota: comida, roupa, massagens, manicure, limpezas, o que seja…é marcar e, em menos de nada, alguém bate à porta com o serviço/produto que encomendámos. Fora de Jakarta, há muitas paisagens paradisíacas e a Indonésia é um país lindíssimo. E claro, continua a haver muita fruta tropical.

 

Não se deixem assustar, na verdade, tirando umas típicas maleitas ao nível do sistema digestivo, está a correr tudo muito bem. A seu tempo, voltarei a escrever sobre como é viver em Jakarta, já com outro conhecimento de causa e, tenho a certeza que terei coisas melhores para vos contar.

Repete, Rita: Praias e fruta, praias e fruta, praias e fruta…

 

 

Um comentário em “Viver em Jakarta: as primeiras impressões

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