A fuga de Jacarta – parte I

Estou em Portugal há quase 2 meses, depois de uma reviravolta inesperada relacionada com a pandemia. Num dia estava a dizer às minhas amigas “estamos aqui muito bem, não tencionamos sair da Indonésia” e no outro, estava enfiada num avião a caminho de Portugal. Não foi propriamente uma escolha ou uma decisão ponderada, foi mais uma espécie de é agora ou nunca.
 
Há semanas que eu e o Pedro falávamos sobre a possibilidade de deixarmos temporariamente a Indonésia. Cada dia que passava havia mais companhias aéreas a deixarem de voar, mais voos saídos de Jacarta a serem cancelados e mais países a proibirem escalas e trânsito. A nossa conclusão foi sempre que não fazia sentido. Viajar seria correr riscos. Para onde íamos? Ir para Portugal seria colocar outras pessoas também em risco. As nossas famílias já estavam em isolamento, não podíamos ir nós estragar-lhes o esforço. Nós estávamos bem, tínhamos a despensa preparada para uma estadia longa sem saídas, éramos só os 3 numa casa grande e com espaço exterior para arejar. A única preocupação eram todos os “ses“: se um de nós tem um problema de saúde que necessite de cuidados que aqui não existem e não se conseguir viajar, se algum de nós apanha Covid19, se as coisas aqui se complicam a nível social e há tumultos, se começa a haver escassez de alimentos (contei-vos das cebolas!), se, se , se… Porque, em circunstâncias normais, se, a solução é apanhar um avião. E cada vez havia menos aviões para sairmos da Indonésia. 
 
Alguns amigos já tinham deixado o país, aconselhados pelas embaixadas ou pelos empregadores. Do nosso lado, não havia indicações nesse sentido. A embaixada de Portugal em Jacarta aconselhava-nos a ficarmos em casa e a empresa do Pedro apoiava a nossa saída mas deixava à nossa descrição. Olhando para os números oficiais de infectados, a situação no país parecia calma, mas e até que ponto é que confiávamos nos números que nos mostravam? Como é possível que a Indonésia, na localização onde está, só tenha começado a ter infectados no mesmo dia que Portugal? Com tantos turistas vindos de todo o mundo, todos os dias, com voos directos de Wan para Bali…? Todo um rol de dúvidas e preocupações que nos deixavam na dúvida quanto à nossa decisão de ficar. Mas fomos ficando. Com receio, atentos às notícias e com muitos cuidados.

Domingo, 22 de Março, antes de me deitar, recebi uma mensagem de um amigo a dizer-me que a Emirates tinha acabado de anunciar que suspendia os voos por 6 meses. Isto fechava-nos muitas portas. Nessa noite, o Pedro voltou a contactar a empresa dele para perguntar quais as recomendações de segurança actuais face à nossa permanência no país. Na manhã seguinte, acordámos e já tínhamos a resposta: aconselhamos todos os empregados estrangeiros a deixarem a Indonésia quanto antes. A situação no país apontava para que o número de casos de infectados estivesse a crescer além do oficializado, a capacidade dos hospitais locais para lidarem com o problema era questionável e as opções de saída cada vez mais reduzidas. Eram 9h da manhã. Marcámos voo para Portugal para esse mesmo dia à tarde. Era agora ou nunca e ia ser agora.

Definimos onde íamos ficar e como nos organizaríamos para não pôr a família em risco e lá viemos nós. Por esta altura instalaram-se outros tipos de dúvidas: estaremos a exagerar? Será mesmo necessário deixar tudo para trás e irmos embora assim? Mas a única razão pela qual vivemos em Jacarta é o trabalho do Pedro e, se o trabalho do Pedro dizia “vão”, só tínhamos que ir. Sem muito tempo para pensar ou agir, começámos a fazer malas e a tratar dos aspectos logísticos. Recarregar o contador da electricidade (que funciona em pré-pagamento), reforçar a segurança da casa, dar os alimentos frescos, activar roamings, entre outras coisas com as quais ninguém se quer preocupar quando está a fugir de um sítio.
 

Se a tua casa estivesse a arder o que é que salvavas?

 
Sabem esse exercício mental que às vezes nos pedem para fazermos? De imaginar o que vamos levar connosco se só tivermos uma mochila, ou se formos para uma ilha deserta? Pois bem, a minha casa não estava a arder e, felizmente, para onde eu ia, havia de tudo um pouco. Mas o racional aqui era o mesmo e eu falhei em grande. A ideia era colocar nas malas tudo o que não queria perder (sei lá o que vai acontecer à casa na nossa ausência) ou que me viesse a fazer falta durante a estadia em Portugal (que nem sabia bem até quando iria durar). Só que sem muito tempo para pensar. E não é fácil. Salvei muita coisa errada e deixei de fora muitas outras que devia ter incluído.
 
No meio do stress, do medo, das lágrimas, do alívio, da dúvida e da pressa, não pensei bem no que estava a fazer. Acho que as coisas mais acertadas que pus na mala foram os brinquedos, os livros e os materiais para a Inês se entreter e continuar as actividades escolares. De resto, não percebi ainda o porquê das malas de mão, nos passeios que faço da cozinha para a sala, não me fazem muita falta. E porque ficaram as pantufas para trás? Tive tanto frio nos pés nos primeiros dias. Vale a pena mencionar ainda os ouros e o colar de pérolas, adereços ideais de quarentena. Que na verdade são as únicas coisas de valor (maioritariamente sentimental) que tenho e não queria perder caso a casa fosse assaltada. Mas foi assim, de malas mal feitas, que deixámos a nossa casa e seguimos para o aeroporto. Nós 3, tudo o que coube em 4 malas e a dúvida do que nos esperava.
 
(…continua)
 
 
 
 

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