A culpa (não) é do bolo…

Viver num país com uma cultura tão diferente da nossa, proporciona-me muitas aprendizagens, mas também, momentos de grande frustração. Já vivi situações aqui que me deixaram cheia de sentimentos menos bons mas, no geral, procuro encarar as diferenças com calma e com humor.
Hoje conto-vos aquele que foi o meu primeiro choque cultural, mal cheguei à Malásia.
Foi um dos primeiros episódios que contei nos meus Insta Stories sob o tema #cenasdavidamalaica há já uns tempos e que agora também deixo por escrito.

Temos uns vizinhos super simpáticos que, desde que deram por nós, estão sempre a convidar-nos para casa deles e a virem oferecer-nos comida. São uma família grande (7 filhos + pai e mãe), mais ou menos tradicional (o pai é Malaio e a mãe é Marroquina) e são muçulmanos.

Quando os conheci, o nosso contentor ainda não tinha chegado. Vivíamos com a casa vazia, só com o básico de mobília e “coisas de casa” alugadas.

Vendo-me rodeada de simpatias, só pensava “no dia em que tiver as minhas coisas todas cá, vou fazer um bolo para lhes levar e retribuir”.
E assim foi, quando finalmente vi os caixotes pelas costas e a casa arrumada, comprei os ingredientes e pus mão à obra, para fazer o bolo (em breve partilho aqui a receita).

Em Seattle, sempre que fazia este bolo, os meus vizinhos adoravam e eu não esperava outra reacção da parte destes novos vizinhos.
Muito satisfeita da vida, lá atravessei os 6,5 metros que separam as nossas portas, para devolver uma taça (onde vinha a última oferta de sopa de frango com lentilhas) e fazer um brilharete.

A minha intenção, era demorar aqueles 15 minutos de circunstância, deixar as coisas e vir à minha vida. Mal sabia eu o que me esperava…
Já sentada na sala deles, depois de fazer “conversa”, digo: “pronto, e agora vou andando que não vos quero ocupar mais”, ao que recebi como resposta: “No, not yet!”

Risinho meio assustado, meio curioso da minha parte e este argumento por parte da minha vizinha:

“Today you have to try this special food!”

Eram seis da tarde, eu não tinha assim muita fome, mas ok, vamos lá fazer a vontade à senhora…

Sou então encaminhada para a mesa de jantar onde já há um monte de frascos com “salgadinhos” variados.

Penso: “ok, se são só umas batatas fritas, isto não vai custar nada”…erro!

Depois de me dar a provar fritos de banana, de cebola, de outro tipo de cebola, de uma coisa que não sei o que era e mais outras que também não memorizei, eis que começam a aparecer pratos vindos da cozinha. Afinal, a “special food” ainda estava para chegar…

No meio de tagine de frango, arroz enrolado em folha de bananeira, borrego à malaia, panquecas marroquinas, fritos de toda a espécie, chá marroquino e não sei mais o quê, lá estava também o meu bolo.

A certa altura, enquanto eu tentava comer um bocadinho das coisas que ela me dizia serem mais especiais e dizendo não ao que podia, já a deitar comida pelos olhos, a filha mais nova, pede para provar o meu bolo.

Eu sorrio, a pensar “ah, vai adorar, já estou a somar pontos!” e ouço: “Este bolo leva leite?”….aceno entusiasmada, com a boca cheia de borrego “Sim, sim!” (achei que estava naquela fase de sucesso em que a vizinha me pede a receita), “Hum…”, faz ela…e pumba, cai-me a ficha, sabia exactamente o que ela estava a pensar e tento fugir à questão que sei que ela me vai colocar daqui a 1,5 segundos com uma pergunta altamente estúpida, a tentar ser religiosamente correcta:

“Vocês não têm alergias pois não? Eu não perguntei, mas…”
e, a vizinha, sem rodeios, larga a bomba:
“Todos os ingredientes são halal?”
(mo-rri!)

Para os mais distraídos, eu disse que eles são muçulmanos, e como tal, manda a religião que apenas consumam produtos halal.
Ora eu fiz aquele bolo específico, precisamente porque achei que, não levando carne, não levando álcool, estaria tudo ok. Mas dediquei um nano-segundo a este pensamento e assumi que não haveria problema nenhum.

Acontece que é muito mais complexo…não leva carne, mas leva ovos, leite, manteiga e fermento. E, meus amigos, tudo isto, pode ter ponta por onde pegar no que às regras de halalismo (inventei agora), diz respeito…sei-o agora, porque depois me fui informar sobre o tema.

Ainda com o borrego atravessado, sem saber bem o que dizer, respondo:

“Sim, acho que sim…pelo menos foram todos comprados na Malásia! (risinho estúpido e nervoso)”
(pois, eu sei, o que é que isso quer dizer, né?!)
E a vizinha, mulher esperta e sem papas na língua:

“Isso não quer dizer nada!”
(eu estava mesmo a pedi-las!)

Milhões de pontos negativos para mim! Milhões! Senti à minha volta o pó de quem bate no fundo do ranking da vizinhança…

Não sei como, mas entretanto, tanto a vizinha, como a mãe (que nesse dia estava de visita) já estavam agarradas ao bolo e, apesar de continuarem a adivinhar ingredientes, disseram que estava muito bom.

A partir deste momento e, já sem fome, nem ponta de apetite, tudo o que me mandaram comer, eu comi, até tagine de frango com azeitonas (ODEIO azeitonas).

Passaram 3 horas (!!!), desde que entrei na casa deles, saí de lá a rebolar, sem ego e com um prato de arroz, frango, borrego e uma caneca de chá na mão.

Vim para casa, revirar todas as embalagens envolvidas na confecção do bolo, à procura do simbolozinho que garante serem halal e estava tudo ok!

Insha’Allah!

 

 

 

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